"[...] A minha contribuição foi encontrar uma explicação segundo a qual, por trás da mão que pega o lápis, dos olhos que olham, dos ouvidos que escutam, há uma criança que pensa." (Emilia Ferreiro)
Psicóloga e pesquisadora argentina desenvolveu junto com Ana Teberosky - pedagoga de Barcelona - um conjunto de pesquisas que focalizam processos de aprendizagem da escrita. Fez seu doutorado em Genebra tendo como orientador Jean Piaget. Baseando-se nos estudos de Piaget e nos avanços das ciências linguísticas, Emilia Ferreiro e Ana Teberosky realizaram estudos experimentais, utilizando o método clínico desenvolvido por Piaget como um instrumento de abordagem dos sujeitos pesquisados. Importante frisar que essa pesquisa não pretendeu prescrever formas de abordagem para o ensino da leitura e da escrita. O objetivo era revelar e interpretar as hipóteses elaboradas pela criança no processo de construção do conhecimento sobre a escrita.
Os resultados desse trabalho apontam para uma transformação na concepção do sujeito que aprende a língua escrita - não mais alguém que aprende por repetição, copiando e reproduzindo letras isoladas, sílabas, palavras, mas um sujeito que aprende atuando com a língua e sobre a língua, buscando compreender o sistema da escrita, formulando hipótese.
A pesquisa evidencia que esse processo de aprendizado não espera a escola, começa a ocorrer muito antes de a criança submeter-se ao ensino sistemático, muito antes de ser "autorizada" a aprender.
As etapas, segundo as autoras, compreendem três diferentes níveis: pré-silábico, silábico e alfabético, sendo que o último é dividido em silábico-alfabético e alfabético.
- Nível pré-silábico - A criança não estabelece relações entre a escrita e a pronúncia, ainda representa a escrita por meio de desenhos, rabiscos ou letras aleatórias, sem repetição e com critério de no mínimo três. Nesta fase, a criança associa de maneira direta a palavra ao objeto a que se refere, não distingue ainda objeto da palavra que o representa. Acredita que a palavra cão deva ser maior qua a palavra formiga, porque representa um objeto maior e mais pesado. Piaget denominou essa hipótese de "realismo nominal".
- Nível silábico - A criança descobre a lógica da escrita por meio da correspondência entre a representação escrita das palavras e as propriedades sonoras das letras, usando, ao escrever, uma letra para cada emissão sonora, pois supõe que deve escrever tantos sinais quantas forem as vezes que mexe a boca, ou seja, para cada sílaba oral corresponde uma letra ou um sinal escrito. É comum o uso aleatório dos símbolos gráficos, empregando ora letras "inventadas", ora apenas consoantes, ora vogais, repetindo-as conforme o número de sílabas das palavras.
- Nível silábico-alfabético - A criança compreende que a escrita representa a fala e começa a perceber que cada emissão sonora (sílaba) pode ser representada, na escrita, por uma ou mais letras. Nesse período, é comum a criança combinar só vogais ou só consoantes, fazendo grafias equivalentes para palavras diferentes.
- Nível alfabético - Segundo Ferreiro e Teberosky "a criança já compreendeu que cada um dos caracteres da escrita corresponde a valores meores que a sílaba. Isto não quer dizer que todas as barreiras tenham sido superadas: a partir deste momento, a criança se defrontará com as dificuldades da ortografia, mas não terá mais problemas de escrita, no sentido estrito".
Baseado no artigo de Maria do Socorro Alencar Nunes Macedo
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